Impactos psicossociais e riscos ambientais em catadores de recicláveis:
relato de caso
DOI:
https://doi.org/10.29184/anaisscfmc.v42025p72Palavras-chave:
Catadores de materiais recicláveis, Saúde mental, segurança do trabalho, vulnerabilidade socialResumo
Os catadores de materiais recicláveis realizam um importante trabalho de utilidade pública, coletando, separando, recuperando e reciclando materiais sólidos. Porém, apesar de exercerem uma atividade essencial à sustentabilidade urbana, as condições de trabalho são marcadas por vulnerabilidades sociais, riscos ambientais e biológicos, além de sofrerem estigmas sociais que afetam a saúde mental. Esse trabalho objetiva descrever a situação de uma catadora de recicláveis atendida em unidade básica de saúde, evidenciando os múltiplos aspectos que comprometem sua saúde física e mental, além das desigualdades sociais que permeiam sua vivência. Paciente do sexo feminino, 60 anos, residente de bairro periférico. Vive sozinha, com rede de apoio composta por irmãos e um sobrinho. Apresenta escolaridade fundamental incompleta e atua como catadora de recicláveis há 12 anos, exercendo a atividade diariamente por cerca de oito horas, utilizando bicicleta para deslocamento e trabalhando sem qualquer tipo de orientação técnica ou uso de equipamentos de proteção individual (EPIs). Durante a coleta, a paciente percorre terrenos baldios e ruas, muitas vezes tendo contato direto com resíduos domésticos e materiais descartados de forma inadequada. Relata que nunca utilizou EPIs e que já sofreu diversos acidentes, como perfuração na região plantar por prego, além de cortes por cacos de vidro em mãos e pés. Veste roupas comuns e calça chinelos durante a atividade e não possui acesso a protetor solar. Mencionou que os materiais recicláveis são armazenados em sua residência. Do ponto de vista clínico, é diabética e hipertensa. Apresenta ainda diagnóstico de Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica, em acompanhamento após confirmação por história clínica, exame físico, radiografia e tomografia de tórax, evidenciando infiltrado pulmonar leve. É tabagista crônica, com consumo estimado de até dois maços de cigarros por dia. Apresenta histórico relevante de doenças infecciosas e parasitárias associadas ao contexto ambiental e laboral: pitiríase versicolor em região dorsal, tungíase, infecção por Helicobacter pylori, sífilis pregressa e infecção urinária atual por Escherichia coli. Em outro momento, referiu prurido com formação de bolhas e lesões em membros superiores anos atrás. Ao exame físico, observou-se presença de varizes, edema em membro inferior direito com aumento de circunferência, associado a prurido local. No campo psicossocial, a paciente tem o histórico de transtornos psiquiátricos. Relata agravamento recente do quadro ansioso, vinculados a situações de injustiça social e à precariedade financeira. Refere ainda episódios de discriminação relacionados à sua atividade laboral, o que impacta significativamente sua autoestima e saúde mental. Em suma, o caso apresentado demonstra a interação de múltiplos fatores sociais, ambientais, infecciosos e psicossociais que impactam na saúde da paciente. Evidenciando que a ausência de políticas públicas voltadas para a proteção e formalização da atividade de catadores agrava o ciclo de adoecimento e marginalização social. Dessa forma, reforça-se a urgência de ações em saúde coletiva que promovam a dignidade e proteção desses trabalhadores, assegurando a equidade social e o acesso aos seus direitos trabalhistas.
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